João Gabriel, jornalista, associado a diversos projectos na Rádio TSF, TVI e SIC, teve o privilégio de ter sido assessor de imprensa do Presidente da República Jorge Sampaio nos dois mandatos que esteve em Belém.
A oportunidade com que foi lançado este livro é inequívoca. Falta à literatura biográfica portuguesa testemunhos como o que João Gabriel nos transmite neste livro que, utilizando um registo muito objectivo e directo, transporta-nos para o interior do Palácio de Belém e faz-nos ver muitas das situações (e decisões) políticas da última década de uma nova perspectiva, com novos elementos e particularidades únicas.
Quando se escreve um livro sobre o dia-a-dia de um Presidente da República, nas situações mais banais ou nos momentos mais cruciais da vida política de um país, pode haver o risco de se cair num certo voyerismo que prenda o leitor aos pormenores mais populistas e bizarros e esqueça ou desvalorize, por exemplo, aspectos constitucionais do regime ou a comparação entre Presidências e Chefes de Estado.
A capacidade de comunicação e escrita de João Gabriel não deixou que isso acontecesse neste registo literário e os temas que aborda no livro levam-nos a compreender melhor a personalidade de Jorge Sampaio e a perceber algumas das suas posições políticas.
“Confidencial – A Década de Sampaio em Belém” é um livro que contribui para entender melhor as Eleições Presidenciais de 1996, a reeleição (cinco anos depois), os momentos de instabilidade política que Portugal viveu em 2004 com a partida do primeiro-ministro Durão Barroso para Bruxelas, a “rendição do PSD” à solução Santana Lopes, e a chegada deste ao cargo de primeiro-ministro.
A questão de Timor-Leste também ocupa destacadas páginas no livro de João Gabriel – nos mandatos de Sampaio o “mundo acelarou” relativamente à questão de Timor Leste e, segundo o autor, no mês de Outubro de 1996, deu-se o “ponto de viragem” com o anúncio pelo Comité Nobel da atribuição do Prémio Nobel da Paz a Ramos Horta e D. Ximenes Belo. Jorge Sampaio soube, com surpresa, da notícia em Faro quando iria presidir à abertura do Fórum Património Histórico Cultural na Universidade do Algarve.
Na entrega do Prémio Nobel, em Oslo, o Presidente Sampaio teve a oportunidade de estar presente e convidou os dois ex-Chefes de Estado da democracia portuguesa. Apenas o Gen. Ramalho Eanes aceitou o convite.
Em Oslo, Jorge Sampaio, jantando na Embaixada Portuguesa na Noruega, teve a oportunidade de conviver com um “inesperado penetra”, por sinal, “pretendente ao trono português”, D. Duarte Pio. Os diálogos, o humor, as conversas, deste repasto são bastante bem descritas por João Gabriel.
Mas na visita de Jorge Sampaio à Noruega, a quando da entrega do Prémio Nobel, há a salientar fundamentalmente a entrevista dada à CNN. A decisão de estar presente, em prime time na CNN, a falar de Timor Leste, foi ponderada – João Gabriel, como assessor de imprensa, sempre defendeu a “oportunidade única” desta presença; António Sennfelt, assessor diplomático de Belém, entendia que o Presidente da República não deveria estar no programa televisivo pois iria estar “ao nível de um embaixador indonésio” que também estava presente no painel de entrevistados.
O Presidente da República, ouvindo os argumentos de ambos os assessores, aceitou o desafio lançado pela CNN e esteve presente no programa.
Dotado de um excepcional inglês, muito devido ao facto da mãe do ter sido professora, Jorge Sampaio iniciou a sua intervenção esclarecendo que não estava no programa para “responder a um senhor embaixador”, que já tinha intervido, e com um discurso claro, metódio e orientado para os objectivos traçados, foi uma “verdadeira estrela” televisiva, causando impacto nacional e internacional. Pode-se até considerar que este foi “o momento” do primeiro mandato do Presidente Sampaio.
Ainda sobre Timor Leste, João Gabriel traça um percurso dos vários momentos marcantes do processo após Oslo e confirma-nos que, no período em que se discutia na ONU as opções no boletim de resposta na consulta popular a realizar aos timorenses, a possibilidade de estar uma “terceira via” em que Timor regressaria à soberania portuguesa foi equacionada.
Esta hipótese nunca saiu de dos gabinentes, em Nova Iorque, pois a diplomacia portuguesa rejeitou-a peremptoriamente.
O autor termina os factos relacionados com Timor Leste, abordando, de uma perspectiva muito pessoal, próxima dos acontecimentos mais significativos, as viagens até Dilí para a preparação da visita do Presidente da República ao novo país, a própria visita de Sampaio e a peripécia de, em Baucau, o avião C-130 português estar “inoperativo” e do nosso Presidente ter ido “à boleia” de um charter da Jaro Internacional, uma companhia aérea romena que, possibilitou ter colocado a comitiva portuguesa em Singapura mais cedo até que o planeado.
Finalmente, João Gabriel fala da emocionante visita a Portugal de Xanana Gusmão e, associada a esta, das guerrilhas entre Belém e São Bento pelo protagonismo da visita, e do empréstimo que o jornalista fez a Xanana – qual não seja: o fato que o líder timorense haveria de vestir na cerimónia no Palácio de Belém para receber a Grão Cruz da Ordem da Liberdade.
No livro também é abordado o gosto que Jorge Sampaio tinha pelo futebol, os seus relacionamentos com a selecção nacional, com alguns jogadores e com o Sporting.
A propósito de futebol, o livro aborda de modo bastante objectivo os factores envolventes ao chamado caso do plano de pormenor do Estádio do Dragão que lançou para uma guerra irracional o presidente do Futebol Clube do Porto e o, na altura, recém-chegado Presidente da Câmara Rui Rio.
A gestão desta crise é explicada no livro, comprovando-se o tacto interventivo, diplomático e dialogante de Sampaio quando se tratada de resolver assuntos complexos e que, no caso de serem mal resolvidos, poderiam pôr em causa o interesse e a imagem de Portugal.
A caminho da parte final do livro, o autor reflete sobre o facto do jornalismo, ou um certo tipo de jornalismo, ter contribuído para debilitar a política e os políticos.
“Poucos jornalistas percebem o efeito que a sua prática justiceira provoca” – desde modo, João Gabriel refere momentos de tensão entre Belém e a comunicação social, motivados essencialmente por este lobby ter profissionais que não olham para as consequências que envolvem lançar uma notícia mediática sem, atempadamente, se confirmarem as fontes e sem estudar o assunto. O autor, apesar de jornalista, confirma-nos que, na maior parte das vezes, a dinâmica laboral em torno dos media está “mais preocupada com a lógica do negócio do que com a qualidade do jornalismo publicado”.
A estreia de Ferreirinha, uma das apostas da RTP, sobrepôs-se, num processo que desvaloriza a figura do Presidente da República, a um debate sobre a Saúde em Portugal, numa altura que Jorge Sampaio realizava uma Presidência Aberta sobre o sector.
O oportunismo jornalístico e a sua necessidade em “raptar” frases que, desprovidas do contexto, podem ser excelentes títulos de notícia, ficaram bem descritas nos casos da visita de Jorge Sampaio ao Vaticano (e no facto de ser casado pela segunda vez), e num debate realizado em Belém na altura do 4º aniversário do Expresso da Meia-Noite, programa da SIC Notícias, e que contou com o Presidente, Pacheco Pereira, entre outros e, tendo na assistência, um jornalista do Diário de Notícias, este aproveitou-se de uma frase em que Sampaio reflectia "académicamente" sobre o sistema político-partidário português, para, nos jornais, e antes do programa passar na emissão, indicar que Sampaio defendia que o “sistema devia mudar para facilitar maiorias”.
O sindicalismo actual em Portugal, os quadros oferecidos por Paulo Rego, os contactos próximos com o Rei de Espanha e com Fidel Castro, também são destacados pelo autor João Gabriel.
O caso mediático criado por Paulo Portas, deputado do CDS-PP de Manuel Monteiro, em 1996, na primeira visita de Estado de Jorge Sampaio a Espanha também foi “desenterrado” neste livro, levando-nos a reflectir sobre o percurso que, desde então, Paulo Portas teve até aos nossos dias.
Sobre Santana Lopes, e sobre o período mais agitado do segundo mandato de Jorge Sampaio, não explanarei nesta recensão. O tema, por si só, bastaria para fazer várias recensões. Como tal, convido-vos a ler o livro e, desse modo, a perceberem porque Jorge Sampaio, indo contra o Partido Socialista e, perdendo para sempre “o amigo” Ferro Rodrigues, decidiu convidar Pedro Santana Lopes para formar governo.
Em jeito de conclusão, Jorge Sampaio revela-se um Presidente da República com uma personalidade pessimista, ponderado em todas as decisões que toma por ter uma enorme noção de consciência e responsabilidade em relação ao cargo que ocupa no regime político português.
A relação do Presidente Sampaio com a cultura é autêntica e assumida. Sampaio gosta de touradas, de futebol, de pintura e de música e assume com a naturalidade e coragem de quem não aceita renunciar aos seus gostos e convicções pelo mediatismo e pela oportunidade política.
Nas três décadas da democracia portuguesa, Jorge Sampaio marca a classe de políticos do pós-25 de Abril que mais procurou dignificar e valorizar a classe política.
Apesar de muitas vezes ser considerado pela comunicação social e pelos comentadores políticos como um Presidente da República demasiado permissivo, tolerante e até ausente, Jorge Sampaio salda os seus dois mandatos com o período político de dez anos em que um Presidente mais utilizou o veto, mais leis enviou para a fiscalização preventiva da constitucionalidade, tendo sido o primeiro a utilizar a “bomba atómica” na dissolução de uma Assembleia da República em que existia uma maioria absoluta a suportar um Governo. |