Ouço
muitas vezes o argumento da desproporção do uso da força
por parte de Israel na sua resposta de retaliação a ataques
levados a cabo pelo Hezbollah, através dos diversos meios de comunicação
e entre os círculos fechados dos corredores que atravessam as salas
quer do Conselho da União Europeia quer da Comissão Europeia.
Neste contexto gostaria de reiterar o seguinte: A guerra, de uma forma
geral, que hoje se trava já não pode ser combatida de uma
forma convencional: as ameaças com que se confronta hoje o mundo
ocidental e democrático são cada vez mais difusas, difíceis
de identificar e imprevisíveis. Hoje já não se confrontam
exércitos bem definidos, dispondo de aparelhos militares equivalentes
e que se combatem de acordo com a teoria da “guerra justa.”
(apesar de duvidar bastante da possibilidade desta teoria se aplicar na
prática em alguma circunstância acho que sempre são
principios que servem de referência a uma conduta de guerra). A
mera questão do que constitui uma ameaça é em si
mesmo objecto de debate e de discórdia não só entre
diversos Estados e líderes políticos mas também entre
a sociedade civil e a opinião pública.
O actual conflito entre Israel e o Hezbollah e a percepção
que certos segmentos da comunidade internacional e da opinião pública
têm deste demonstra de forma flagrante esta realidade. Pelo que
acho importante relembrar o seguinte: o inimigo de Israel não é
um Estado, cujo exército o ataca abertamente, mas sim um eixo de
Estados que o rodeiam e que mantêm uma máquina de propaganda
anti-israelita e uma retórica agressiva que incita ao ódio
e que apela sem qualquer escrúpulo à sua destruição
(um facto que é bastante ignorado e raramente debatido pelos média
e pela opinião pública). O inimigo não usa os métodos
convencionais para combater e fazer avançar a sua agenda política.
Pelo contrário, organiza-se através de milícias e
grupos de guerrilhas dispersos que utilizam a população
civil como escudos humanos, que se aproveitam do elemento surpresa de
atentados suicidas, e que agem de uma forma cobarde e desonesta. No entanto
parecem dar a imagem de meros grupos de resistentes irresponsáveis
que escapam ao controle do governo (apesar de estarem cada vez mais representados
na esfera política e de ganharem cada vez mais adesão popular
nos Estados em que operam). Logo, qualquer resposta a um ataque desencadeado
neste caso pelo Hezbollah, surge aos olhos do mundo como uma resposta
desproporcionada sobretudo para quem opta por ignorar, na narrativa do
conflito, que esta ofensiva israelita é a consequência e
não a causa da actual crise.
Admito que Israel até possa ter cometido erros de estratégia
militar (apesar disto fazer parte da imprevisibilidade que caracteriza
qualquer guerra) nos alvos que pretendia atingir causando demasiadas vitimas
civis. Mas a questão é que a proporcionalidade da resposta
tem que ser equacionada mediante a ameaça que este ataque do Hezbollah
representa. E esta ameaça vai muito para além dos soldados
capturados e assassinados em solo soberano de Israel, vai muito para além
de mísseis e rockets que atingem Haifa e o norte de Israel. É
um ataque que vem na sequência de muitos outros, que é desencadeado
com armas e dispositivos militares do Irão e com o apoio da Síria,
que se enquadra numa lógica bélica regional anti-Israel
e numa retórica anti-semita que tem as suas origens imediatas na
criação do Estado de Israel. É muito fácil
fazer julgamentos, publicar grandes comunicados, deixar a resolução
do conflito nas mãos de uma comunidade internacional que pouco
ou nada pode fazer por falta de capacidade militar e influência
política, sobretudo quando não é a sua própria
sobrevivência que está em causa.
Políticos e tecnocratas da União Europeia parecem concordar
com a gravidade que a ameaça do Hezbollah representa para Israel
e apelam à cessação de hostilidades e ao cessar-fogo.
Mas quando se lhes coloca a questão “então o que sugerem
para que Israel se veja livre do Hezbollah?” são incapazes
de apresentar uma resposta coerente que enfrente o problema de frente.
Por outro lado, a União Europeia recusa-se a incluir o Hezbollah
nas lista negra de organizações terroristas (contrariamente
ao que fez em relação ao Hamas) apesar deste movimento –
tal como os que já estão incluídos na referida lista
- satisfazer todos os critérios de um movimento “terrorista”
de acordo com a definição europeia. Pergunto-me então,
qual é o propósito desta lista se no fundo a legitimidade
destes grupos militantes é avaliada em função do
poder e da influência que têm e não em função
do mal que causam (se um grupo neo-nazi ascende ao poder em qualquer país
Europeu, então tornar-se-á legítimo e digno do “diálogo”?).
A União Europeia tem que impor as suas condições,
manter-se fiel aos seus princípios e valores fundamentais e não
ceder a grupos que aterrorizam populações inteiras e que
são responsáveis por centenas de atentados terroristas,
só porque estes têm eco no mundo árabe pelos motivos
errados.
Todos queremos a Paz e não quero com isto dizer que a solução,
a longo prazo, para o conflito actual entre Israel e o Hezbollah tenha
que ser única e exclusivamente militar. A questão é
qual é a melhor forma de alcançar essa paz e sobretudo de
enfrentar uma ameaça crescente que não pode ser ignorada
e que definitivamente não se esgota nas fronteiras do Estado de
Israel como a história recente infelizmente já o comprovou.
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