No primeiro trimestre deste
ano, a Europa fez parte da agenda de George W. Bush na esperança
de ultrapassar as divisões provocadas pela guerra do Iraque e começar
uma nova fase do relacionamento transatlântico. Foi recebido de
braços abertos pelos líderes europeus, sobretudo pelos que
mais o criticaram.
A visita do presidente Norte-americano
à Europa foi sem dúvida muito bem preparada de modo a impressionar
e cativar todos os que se opuseram à guerra do Iraque. Como referiram
alguns meios de comunicação, numa clara tentativa de sedução,
George W. Bush jantou a sós com Chirac e deslocou-se à Alemanha
para se encontrar com Gerhard Schroeder, outros tiveram que se deslocar
a Bruxelas para efectuarem breves encontros com o mesmo.
Os objectivos foram alcançados
visto que, a operação de charme resultou na medida em que,
quer a Alemanha quer a França mostram-se agora muito mais disponíveis
para cooperar. Apesar de continuarem a recusar o envio de tropas para
o Iraque.
Em Bruxelas, George W. Bush pediu uma “nova era” de relacionamento
transatlântico. Independentemente das diferenças do passado
defendeu que americanos e europeus partilham dos mesmos valores e têm
os mesmos objectivos que são espalhar a democracia e a liberdade
pelo mundo. Reforçando a convicção de que a segurança
de ambos depende do sucesso desta colaboração. Mas mais
uma vez somos invadidos por um sentimento de desconfiança, não
pelos objectivos, mas sim pelos meios a utilizar.
Verifico que são diferentes
as formas de ver e interpretar as situações. Os europeus
são mais diplomatas enquanto os americanos têm bem definidos
os seus objectivos, jogando assim a favor dos seus próprios interesses.
Apesar de todos as formalidades
habituais, interrogo-me se a Europa e a América conseguirão
trabalhar em conjunto e defender os mesmos interesses? Surgindo a dúvida
se esta é uma “nova era de entendimento ou um exercício
de hipocrisia ditado pelo pragmatismo”.
Ao abordar esta temática
da política externa norte americana e o papel da Europa na mesma
tenho que, inevitavelmente, referir uma obra que interroga e simultaneamente
esclarece: “Precisará a Europa de uma Política Externa”
de Henry Kissinger, onde o mesmo refere que na entrada do novo milénio
deparamo-nos com os EUA a possuírem uma superioridade inigualável.
Desde o armamento à actividade empresarial, da Ciência à
tecnologia. Assumiram um papel de mediadores mesmo que por muitos questionado,
alcançaram-no. Por muitos considerado como indispensável
à estabilidade internacional.
Sempre como principal objectivo
a manutenção da paz e propagação de sistemas
Democráticos. Perante algumas actuações questionamo-nos
se são os valores ou o interesse, o idealismo ou o realismo a conduzir
a política externa Norte Americana, quando o ideal seria fundi-los.
Kissinger refere que a transformação
da relação atlântica é provocada por quatro
mudanças fundamentais: a desintegração da União
Soviética; a unificação da Alemanha; a tendência
crescente de tratar a política externa como um instrumento da política
interna e o florescimento da identidade europeia. Perante uma nova ordem
europeia onde uma Europa tenta afirmar e demarcar-se cada vez mais de
políticas unilateralistas.
No seguimento deste pensamento
desta tentativa de perceber a aproximação dos EUA à
Europa queria referir a última visita de Madeleine Albright pela
coerência que transmitiu aquando da sua participação
na Sexta edição das Conferências DN/Diário
Digital, onde abordou os perigos e desafios que pairam sobre as democracias
contemporâneas, quando em causa está o relacionamento transatlântico,
referindo que podem existir líderes que olhem mais do que outros
para além do ciclo eleitoral.
Perante a complexa conjuntura
internacional propícia a situações ambíguas
para as democracias, “Uma Europa forte e unida e uns EUA fortes
são indispensáveis um para o outro”. Albright insiste
na importância do multilateralismo, na necessidade de se definir
no plano internacional “objectivos comuns”.
Em suma, admitindo que os Estados
Unidos são actualmente a única superpotência mundial
e que pouco pode ser feito contra ela ou sem ela, temos consciência
da sua vulnerabilidade como de qualquer outro estado, seja ele pequeno
ou grande. Mas é inevitável questionarmo-nos quando e como
é feita esta aproximação de uma superpotência
como os EUA ao Velho Continente. |