O que nos reserva 2007 *
Dezembro 2006
Arnaldo Gonçalves
Consultor. Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa
Actualmente assessor jurídico na administração da Região Administrativa Especial de Macau.
 

Se a configuração dos números tem mais que um significado corrente e esconde uma dimensão simbólica e misteriosa, como alguns afirmam, o ano de 2007 poderá ser um ano de enormes transformações e mudanças no mundo. O número 9 que resulta da adição dos algarismos que formam o ano contém um significado encoberto: o 9 é o princípio do Criador, que ilumina toda a actividade intelectiva e toda a obra humana, exprimindo, externamente, a Obra de Deus que vive em cada homem, para a conclusão da sua Obra.

O homem novenário - diziam os Antigos - que resulta do triplo do ternário, é a união do absoluto com o relativo, do abstracto com o concreto. O número 9 é também o número dos Iniciados e dos Profetas.

Revendo os acontecimentos que marcam a agenda internacional será difícil antecipar transformações dessa monta e será no imprevisto que se irão lançar as pistas de mudança. Do imprevisto não falarei. Sir Karl Popper, numa obra magistral, mas muito esquecida [A Sociedade Aberta e os seus Inimigos] alerta-nos para o pecadilho crónico e obsessivo de tentar encontrar nas “leis da história” relações necessárias de causa e efeito e prédicas para a percepção do nosso futuro. Se não existem tais leis, se não é possível a realização de predições incondicionais, o planeamento social de longo alcance é um convite ao desastre. Como o demonstra, à saciedade, a narrativa do século XX. A história, somos nós que a construímos, não uma vereda obrigatória com um princípio e um fim, na qual como carneiros sejamos empurrados a calcorrear. Não somos rebanho e não queremos pastor.

1. União Europeia

O ano arrancou com a entrada da Bulgária e da Roménia na União Europeia. A desmontagem do comunismo, iniciada há 17 anos com o derrube do Muro, conclui-se agora numa atmosfera de alegria e optimismo, com a entrada dos últimos países do império soviético na união das democracias. Com 27 países a União Europeia é já a maior federação multilinguística do mundo, um espaço de meio bilião de pessoas, a maior potência comercial do mundo e um enorme espaço geográfico que se estende desde o Oceano Atlântico até ao Mar Negro, delimitado pela Ucrânia, a Leste e pela Turquia a Sudeste. A Europa reencontrou o seu espaço natural que guarda desde os tempos do Império Romano e pode, agora, livre das contrições do passado construir uma relação adulta com a Rússia e com o mundo muçulmano. Mas, para isso, importa pôr-nos de acordo sobre quais são os nossos valores e instituições básicas. A Europa tem que ser mais que a adição das suas partes para ser um projecto civilizacional digno de respeito.

2. Espaço 

Talvez o maior desafio que a Humanidade tem pela frente é a retoma da exploração do espaço e de outras formas de vida extra-humanas. A partida do shuttle Atlantis em Fevereiro e a chegada da sonda Mars Express, em Outubro são etapas importantes na descoberta dos horizontes da raça humana. Esta possibilidade coloca dois desafios. O primeiro banalizar e democratizar o acesso às viagens no espaço; o segundo contratualizar a utilização do bem comum da Humanidade que é o espaço sideral. A evolução frenética da tecnologia aeroespacial, a sua exploração para fins comerciais, tornarão - dentro em pouco - as viagens espaciais oportunidades de lazer. Como revelava a CNN na primeira edição de 2007 vários projectos comerciais estão em curso e é provável que sejam possíveis antes do fim da década. O “2001: odisseia no espaço” de Stanley Kubrik será realidade. Mas o desafio mais importante para o mundo é a necessidade de concertação entre as potências que dominam a tecnologia aeropespacial (Estados Unidos, União Europeia, China) sobre o seus limites. Importa que se regulamente a interdição de uso do espaço interestelar para fins militares sob pena de se abrir uma Caixa de Pandorra incerrável.

3. Ban Ki-moon

O sul-coreano Ban Ki-moon inicia o seu mandato como secretário-geral das Nações Unidas e poderá emprestar- faço votos - um estilo diferente à função. Tornando-se um catalizador da paz, da segurança e do diálogo dos países que têm assento na Assembleia Geral das Nações Unidas e, em particular, no elitista Conselho de Segurança. Mais que um estrito comentador da actualidade internacional espera-se que seja um desenhador de soluções, um negociador interveniente, e pouco a câmara de eco das vaidades das grandes potências ou do complexo de inferioridade de algumas nações em vias de desenvolvimento. A nacionalidade do novo secretário-geral sugere uma sensibilidade muito especial à questão norte-coreana mas problemas como a deriva nuclear do Irão, o conflito intra-palestiniano [e com Israel], a segurança no Iraque e no Afeganistão e a articulação entre o combate à pobreza e o desenvolvimento sustentado impõem-lhe um empenhamento  muito activo e um protagonismo que, sem diminuir o plano da soberania dos estados, possa trazer consequências agregadoras. Apesar de tudo, o mundo precisa da Organização das Nações Unidas, uma organização reformada, forte, ajustada aos desafios do nosso tempo, mais eficiente, menos dispersa por uma multiplitude de causas e aspirações. Tenho para mim que o grande problema do século XXI é o da segurança regional e internacional. Algures, no caminho, as faúlhas de uma nova guerra mundial serão atiçadas. O mundo precisa de líderes esclarecidos, virados para o futuro e não presos a uma lógica de passado. E precisa de um secretário-geral impoluto e honesto.

4. O regresso da espiritualidade

Se o ano transacto representou o ocaso das ideologias laicas como as conhecemos no segundo e terceiro quartel do século XX - o nazismo, o comunismo e as várias expressões do socialismo - a generalização da economia de mercado não fez esquecer que é preciso encontrar um novo equilíbrio, uma nova simbiose entre laicismo e espiritualidade, porque a sociedade está órfã de valores. Há que tecer uma nova trama entre as várias concepções de Bem que existem nas nossas sociedades abertas e que acomodem valores espirituais que dêem estrutura e equilíbrio à sociedade. A dicotomia cristianismo-islamismo é, seguramente, um mote para pontuar extremismos e complexos xenófobos. Mas é também uma oportunidade, para no plano ideário e das crenças, recompreendermos o papel central da religião e da espiritualidade, não como sintomas de atraso, tribalismo ou anti-modernidade, mas como expressões da procura imperecível da felicidade humana. O que nos distingue das civilizações teocráticas é que essa procura é individual e íntima. Nenhum estado, governo ou líder político tem o poder e a autoridade para o decidir e orientar. Mas ela completa a nossa humanidade. 

5. Portugal e a Europa

Portugal toma em Julho a presidência da União Europeia. Pela primeira vez na história da Europa a presidência do Conselho e da Comissão será ocupada - durante seis meses- por dois portugueses, José Sócrates e Durão Barroso. A Europa, não é demais repeti-lo, é “o” projecto político de duas gerações: a que viveu sob o fascismo e construiu o regime democrático; a que amadureceu já em democracia e foi posta perante o desafio de levar as utopias à prática. O balanço é misto e não inteiramente satisfatório. Mas será irresponsável negar que Portugal passou, em três décadas, de um país tristonho, atrasado e complexado a um país mais reconciliado, mais aberto à inovação e ao risco, mais consciente de que a sua viabilidade passa pela Europa a que pertence. É importante que os dois políticos que falam a mesma língua sejam, nesse interim, porta-vozes da urgência da retoma do projecto europeu. As eleições presidenciais em França de Abril próximo mostrarão se há [ou não] inflexão nos sentimentos nacionalistas e egotistas do eleitorado. Mas será importante criar as condições políticas para a refundação - sob liderança alemã - da unidade europeia e para a retoma da ratificação do Tratado Constitucional. As gerações futuras julgar-nos-ão sobre a [nossa] capacidade de preservarmos.

 
* Texto publicado in Tribuna de Macau, e aqui reproduzido com consentimento do autor.