O problema da sinologia *
Maio 2006
Arnaldo Gonçalves
Consultor. Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa
Actualmente assessor jurídico na administração da Região Administrativa Especial de Macau.
 

Ciclicamente regressa ao espaço noticioso o comentário bombástico que Portugal não teve, não tem, sinólogos. Gente que domine perfeitamente a língua chinesa para aceder às fontes primárias chinesas, históricas ou documentais, quiçá as relativas à presença portuguesa em Macau e no Oriente. Traduzindo-se numa desvantagem sistemática dos nossos investigadores comparativamente aos outros ingleses, franceses ou alemães em que é fluente o domínio do mandarim escrito e falado. O facto de antigas nações coloniais como a França, a Grã-Bretanha ou a Holanda disporem de centros de investigação bem dotados e extremamente activos é elencada como uma vantagem decisiva desses países.

Por aí corre a alegação que a administração do único território sínico sobre que Portugal teve responsabilidades históricas, durante quatrocentos e quarenta e dois anos, foi assegurada por imprevidentes e incultos, gente impreparada para o exercício de responsabilidades de administração e que isso é sinal do abandono, por Portugal, das suas obrigações históricas e políticas quanto a Macau.

Parte significativa dessas observações assenta em premissas, parcialmente verdadeiras e não há com que contraditá-lo. Mas noutra parte desvalorizam, subestimam e, nalguns casos, truncam condicionalismos de natureza política, jurídica e institucional que estiveram ligadas ao trato, ao estatuto de base pelo qual Portugal exerceu quanto ao pequeno enclave, responsabilidades de soberania primeiro, de administração depois. Condicionalismos que tipificam uma realidade que autores e investigadores vários que são hoje, convenientemente, deixados na poeira das estantes, tiveram o ensejo de analisar. Posso resumir essa caracterização ao brocado “soberania dividida ou partilhada”. Que permite tipificar a situação de administração dividida, entre as autoridades do Terreiro do Paço e de Pequim, sobre os habitantes portugueses, estrangeiros e “chin” de Macau. Divisão que foi nítida até Dezembro de 1887 quando pelo Tratado de Amizade e Comércio as autoridades imperiais chinesas vieram a reconhecer “a ocupação de Macau por Portugal e o governo perpétuo (de Portugal) sobre o território”. Data a partir da qual a titularidade da soberania e o exercício da administração passaram a coincidir até que em 1976 o legislador constitucional português (e não outro) clarificou o estatuto de Macau como “território chinês sob administração portuguesa”.

Em escritos que deixaram para a posteridade, esses autores tiveram a oportunidade de estudar as razões da postura, das insuficiências, das contradições da acção de Portugal no Oriente a partir do poder metropolitano ou por intermédio dos seus representantes aqui. Manda a decência e o respeito à memória histórica que aqui lembre (sem hierarquizar) os nomes de Charles Boxer, Lourenço Maria Conceição, Anthony Dickens, Almerindo Lessa, Calvet de Magalhães, Videira Pires, Gomes Canotilho, Francisco Gonçalves Pereira, Rui Afonso, António Vasconcelos de Saldanha, Jorge Costa Oliveira, Paulo Cardinal, Eduardo Cabrita entre os muitos que procuraram fazer luz sob um período áureo da história portuguesa, que não envergonha, mas muito nos congratula.

Hoje está na moda carpir-se do que está mal, dizer mal pelo mal, usar o “wishful thinking” de alguns, os palpites de outros, e a ignorância de muitos, como se a história se pudesse fazer (e refazer) a partir de uma “tábua rasa”, obliterando, convenientemente, tudo o que ficou para trás e confundindo o relato factual e os seus protagonistas. Isto configura o que poderia designar como a “jornalificação” da análise histórica e política, a menorização do trabalho académico sério, sistemático e gradual que num tempo de Ritas Ferros e Margaridas Rebelo Pinto, faz escola na literatura, como na análise histórica, enquanto expressão da nossa mediocridade e alarvice.

Portugal nunca teve uma escola de sinologia no sentido estrito que lhe atribuia um recente Fórum em Lisboa – os leitores e falantes de chinês - porque nunca precisou dela. As relações institucionais com os representantes formais e informais do Império chinês (e do mandarinato de Cantão) foram asseguradas pelos jesuítas e, num tempo mais avançado, por intérpretes-tradutores que eram formados nas escolas de Macau. As relações com a comunidade de negócios, com os chineses ultramarinos que logravam refúgio aqui fugidos das perseguições políticas na China eram concretizadas pelos luso-descendentes - os macaenses - que a conhecida predilecção dos nossos compatriotas por mulheres bonitas com traços exóticos, propiciava e multiplicava. É impossível compreender a presença portuguesa em terras do Oriente (como em terras de África) sem perceber o fenómeno da mestiçagem sanguínea e cultural, minimizada hoje pelos seguidores de Edward Said. Para que seriam precisos linguistas, destros na língua maternal chinesa, se os macaenses intermediavam entre os “bárbaros” e os senhores de Pequim e Cantão, transmitindo-lhes o que queriam e trazendo de volta a respectiva resposta? Mesmo que aproveitassem o exercício para se tornarem imprescindíveis e lucrarem, pessoalmente, com a mediação. Numa lógica de custo de oportunidade esta era a solução que estava à mão e pagava o esforço e o encantamento.

Por isso, a segunda localização – a da língua – foi marcada por este fenómeno particular que não se verificará noutras situações de emancipação política de “territórios dependentes”. Se no quadro das negociações no Grupo de Ligação Conjunto Luso-Chinês, se tomou, desde cedo, evidente a identificação do mandarim como a “língua” chinesa, para efeitos da política do bilinguismo, foi claro, também, que no âmbito da outra localização – a dos quadros – a comunidade luso-descendente se encontrava, à partida, em absoluta desvantagem por não dominar o mandarim escrito e falado e ter apenas um reduzido conhecimento vocabular do cantonense. Por esta dificuldade nunca permitiu Portugal que fosse apresentado e negociado, em sede do GLC, uma lista de dirigentes e quadros que passariam a ficar a dirigir os destinos da administração de Macau depois de 1999. Fazê-lo, seria consentir a Pequim uma debilidade negocial evidente.

Esta realidade é por vezes obliterada por uma teia de duplicidades e meias-verdades que imputam a Portugal as pechas de uma localização tardia escamoteando os condicionalismos políticos que a determinaram. Porque para o comum dos mortais a memória é curta e o afastamento dos factos logra encontrar distraídos alguns do seus protagonistas.

Dez anos depois da aprovação da política das duas línguas oficiais permanecem dúvidas quanto à latitude e profundidade da utilização do mandarim, como língua oficial. Até porque o mandarim ensinado no ensino primário, secundário e universitário, em Macau, é o mandarim clássico (guanhua), a língua dos mandarins e não o Standard Mandarim (putonghua/guoyu) que é a língua oficial da República Popular da China, mas também de Taiwan e de Singapura. Passa despercebido aos menos atentos que o mandarim representa, efectivamente, uma família de dialectos múltiplos, alguns dos quais são mutuamente ininteligíveis e que o mandarim pequinense funciona como seu elemento unificador. Isto significa que também por aí decorre uma segunda desvantagem para os naturais de Macau perante as exigências da aplicação ao todo nacional dos vários instrumentos do poder soberano. Ainda numa deslocação recente a Pequim, para objectivos de formação, apercebi-me que os bilingues que integravam a delegação revelavam dificuldades notórias em compreender o chinês escrito nos anúncios comerciais dos shoppings ou nas placas de sinalização alegando em resposta a pergunta minha que o chinês que aprendem em Macau não é o putonghua mas o guanhua.
Estranho. Não consegui reprimir o pensamento que o sistema educativo da Região Administrativa Especial está a criar analfabetos funcionais pretextando torná-los fluentes em mandarim.

Por isso estou crescentemente convicto que a sacrossanta questão da sinologia, entendida como impreparação dos investigadores portugueses para consultar as fontes chinesas é pura mistificação. Nos estudos históricos isso nunca terá sido impedimento para coisa alguma e não é por acaso que alguns dos melhores investigadores de história diplomática se socorrem dos serviços de peritos como Jin Guo Ping para análise das fontes chinesas primárias. Por outro lado, do ponto de vista do estudo das relações internacionais e da análise geopolítica o conhecimento do chinês é absolutamente despiciendo.

Na verdade, as fontes do Ministério dos Negócios Estrangeiros da RPC encontram-se, já em língua inglesa e disponíveis na Internet, por exemplo através do site do jornal China Daily. Ainda quanto à análise histórica deverá ter-se em consideração que os textos de historiadores e investigadores chineses não são ideologicamente neutros, e reportam a uma lógica utilitária que tem objectivos políticos concretos. Basta ler, por exemplo, os textos publicados por investigadores chineses nalgumas revistas técnicas da RAEM para perceber que as opiniões expendidas valorizam mais uma dada posição oficial, nada se preocupando em analisar, controverter ou mesmo questionar as origens e razões de determinada asserção, comando jurídico ou afirmação ideológica.

Isso será, provavelmente, expressão do ensino acrítico, mecânico e conformista que tem vigorado na China Popular. Não há tradição de dissenso na China, porque isso foi entendido – durante décadas - sinónimo de traição ao Estado, fiel guardador da verdade absoluta. Trata-se, contudo, de uma realidade em franca mutação, até porque os responsáveis políticos da China perceberam que se têm de ajustar aos padrões educativos internacionais, para terem no mercado de trabalho licenciados competentes e competitivos. Durante muito tempo essa “abertura” foi conseguida com o envio dos melhores alunos para as grandes universidades dos Estados Unidos, do Canadá, da Austrália ou do Reino Unido. Mas com a constatação que os bons raramente regressam à China assiste-se agora a um fenómeno de sentido inverso: o esforço de elevar as melhores universidades chinesas aos padrões de excelência internacionais. Ainda, recentemente, soube de um amigo professor de uma conhecida universidade de Hong Kong que foi recrutado, pela Universidade de Pequim, para aí leccionar ciências sociais durante três anos, em condições remuneratórias próximas das oferecidas pelas universidades europeias. Esse meu amigo é francês e não fala mandarim.

Por isso a aludida ausência de sinólogos surge à evidência mais como uma desculpa, um fait-divers, do que uma deficiência clara do nosso corpo de investigadores e da academia. O que importa perceber é se a componente dos estudos orientais faz sentido nos curricula universitários portugueses, se o mercado de trabalho assimila os jovens que saem com esta especialização. No passado recente a situação era negra, dado o desinteresse das empresas portuguesas pelo mercado chinês, japonês ou do Sudeste Asiático. Há novas promessas de mudanças e tem sido acentuado a subida das trocas comerciais com a China como podendo reflectir uma inflexão na queda das relações comerciais bilaterais. Estamos, contudo, no princípio, no domínio das intenções e das declarações proclamatórias.

E os fracassos e desilusões do passado aconselham a que vamos devagar e com cautela.

 
* Texto publicado in Tribuna de Macau, e aqui reproduzido com consentimento do autor.