Tribuna
de Macau, 19 de Agosto de 2004
O presidente americano George
W. Bush anunciou, esta semana, na convenção anual da associação
de veteranos das guerras no estrangeiro em Cicinnati que as forças
militares americanas no mundo irão ser alvo de um reposicionamento
global, ao longo dos próximos dez anos. Isto significa a retirada
de 70 mil a 100 mil homens da Europa e da Ásia e a movimentação
de um número global 100 mil pessoas, entre pessoal civil e famílias
dos militares.
Dois terços desta redução
acontecerá na Europa, sendo a maior parte das tropas, estacionadas
na Alemanha, provavelmente, redistribuídas por bases situadas nos
Estados Unidos. Outra parte da redução acontecerá
na Coreia do Sul e no Japão onde se encontram estacionados 30 mil
militares no âmbito dos acordos que resultaram do armistício
da 2.a Guerra Mundial.
A movimentação
dos contigentes americanos, cujo agendamento e faseamento se encontra,
agora, a ser negociado com os responsáveis políticos dos
países anfitriões marca o fim de uma era, mas tem três
implicações determinantes no plano geoestratégico
e da segurança internacional e regional.
Coloca, em primeiro lugar,
um término na lógica decorrente da Guerra Fria de afrontamento
entre dois blocos políticos, ideológicos e militares estruturados
e coesos. A União Soviética e o Muro de Berlim desapareceram
há quinze anos, os Estados Unidos são a única superpotência,
contam-se por uma mão os países que se reclamam da herança
do estalinismo e dos seus satélites terceiro-mundistas. Os inimigos
dos Estados Unidos e do mundo livre mudaram e por isso os destacamentos
militares deixaram, há muito, de desempenhar o papel de tampão
e dissuasor para que foram concebidos. Durante décadas - lembrou
Bush - as tropas americanas mantiveram-se essencialmente onde terminaram
as guerras na Europa e na Ásia o que deixou de fazer qualquer sentido.
As ameaças hoje são
de uma outra ordem, os inimigos já não se limitam aos Estados,
habitam e gangrenam os países onde se acolhem [e se impõem],
as técnicas de combate às ameaças são diferentes,
mais sofisticadas, mais dependentes da tecnologia, do comando à
distância, da mobilidade das variadas unidades de transporte, logística,
informações e combate necessárias às operações
de guerra. Exigem, assim, novas abordagens, uma nova filosofia geoestratégica,
uma nova responsabilização colectiva.
A movimentação
dos contigentes americanos coloca, em segundo lugar, uma interrogação
particular sobre o sentido e o papel da NATO como instrumento de defesa
do mundo livre, uma vez que a Aliança Atlântica foi concebida
para confrontar um inimigo localizado no palco europeu e ele já
não está lá. Os factores de perturbação
da segurança da Europa estão mais a Leste, nas falsas linhas
de divisão com o mundo árabe e a grande civilização
dos Islão e encontram-se, ainda, por alguma forma encapotados.
A NATO não se encontra minimamente dotada, quer do ponto de vista
do conceito estratégico, quer da filosofia de operações
para lidar com essa ameaça. É provável que nos próximos
anos assistamos à reconfiguração da Aliança
como a conhecemos nestes 50 anos.
Também aqui, na Ásia,
a retirada das forças americanas do palco regional coloca interrogações
e maiores inquietudes. Como dissuadir as rivalidades entre as grandes
potências regionais, China, Japão, Austrália e impedir
que elas se transfigurem em confronto militar? Como conter e serenar subidas
de tensão entre a China e Taiwan, entre a Coreia do Sul do Norte,
entre China, Japão e Filipinas nas disputas territoriais sobre
as ilhas desérticas do Mar do Sul da China sem uma presença
militar superior que seja respeitada, mas sobretudo temida?
A movimentação
dos contigentes americanos põe, também, mais uma pedra na
verdadeira barcaça à deriva que é o sistema de segurança
internacional, centrado nas Nações Unidas e legitimado pela
Carta que os vencedores da 2ª Guerra Mundial juraram defender há
50 anos. Se há sinal evidente e incontornável da bancarrota
do sistema das Nações Unidas e da Carta - por muito que
isso custe aos juristas internacionalistas - é a inépcia
crónica do Conselho de Segurança para controlar [e resolver]
quaisquer atropelos à ordem e à lei internacional. Lembro
a Bósnia, o Ruanda, o Kosovo, o Iraque, a Coreia do Norte e o incontrolado
[e silenciado] problema do Sudão. Ninguém leva hoje a sério
as Nações Unidas.
O que nos está reservado
quando um novo adversário, um novo poder pária, um novo
[ou velho] grupo terrorista armadilhar a nossa liberdade e o nosso doce
torpor e tranquilidade? Onde estão os contigentes internacionais
prontos actuar para suster as ameaças, desarmar os beligerantes,
derrotar os terrorismos?
Estamos - disse atrás
- no fim de uma Era. Mas outra se insinua, com contornos ainda desconhecidos
e não menos perturbantes, na viragem da esquina do tempo.
Exige-se hoje do mundo civilizado,
das elites, dos responsáveis políticos, dos intelectuais,
uma reflexão urgente, aberta, mas séria sobre que tipo de
concertação multilateral queremos para esta nova era que
se impõe, sem esperar ser anunciada. No acervo do desconhecido
existe apenas uma certeza: a Ordem de Vestefália respondeu aos
problemas dos pequenos e médios Estados do século XIX, mas
é endemicamente incapaz para responder aos do século XXI.
Hans Morgenthau escreveu num
livro extraordinário de 1978 "Politics among nations"
que «o homem nasceu para conquistar poder embora a sua condição
presente o faça um escravo do poder dos outros». Frequentemente
o esquecemos.
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