| O dia da Vitória - 60 anos depois* |
| Maio 2005 |
Arnaldo
Gonçalves |
Consultor.
Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais
pela Universidade Católica Portuguesa |
Actualmente
assessor jurídico na administração da Região
Administrativa Especial de Macau. |
| Concluíram-se, a 9 de Maio, sessenta anos sobre o fim da II Guerra Mundial. O Dia da Vitória. A data marca a capitulação formal das forças nazis ao Marechal Georgy Zhukov e outros membros do comando aliado no quartel-general do Exército Vermelho, em Berlim-Karlshorst. Assinalando a data, 50 líderes mundiais reuniram-se em Moscovo para prestar tributo aos que caíram no campo de batalha e nas trincheiras para suster o avanço das tropas alemãs e permitir a resposta aliada que tomaria o último reduto de Hitler. A data - pela sua importância - merece algumas reflexões. Dos 40 milhões de homens e mulheres que morreram na II Guerra Mundial, 27 milhões eram cidadãos soviéticos o que revela a dimensão do sacrifício pedido ao povo russo para vergar os propósitos imperialistas e expansionistas de Adolfo Hitler. Um General russo, Anatoly Mazurkevich, disse, recentemente, com alguma ironia, que se não fosse a determinação e a coragem dos russos, talvez toda a Europa e até os EUA falassem hoje alemão, <o que seria terrível, dado que se trata de uma língua bem difícil>. O mundo nunca resgatará, totalmente, a dívida de gratidão que tem para com a Rússia e isso deve relativizar, a meu ver, as divergências que possamos ter com Vladimir Putin e conter a impaciência que se mostra com os erros, as indecisões e os fracassos da transição democrática na Rússia. Os atropelos e os crimes do regime tenebroso de José Estaline, registados para a posteridade, em obras como o Arquipélago dos Gulags [1973] de Aleksander Solzhenitsyn, não apagaram essa divida de gratidão que os Estados Unidos, a Europa e o mundo livre têm para com a pátria de Gorky, de Tchekov ou de Eisentstein. A Rússia é hoje um parceiro fundamental para a estabilidade do continente europeu e na luta contra o terrorismo e o avanço do islamismo virulento e radical. A Organização da Segurança e Cooperação Europeia [OSCE] tem, a esse propósito, prestado um enorme serviço à consolidação de uma parceria entre a União Europeia, a Rússia e a CES, com o fortalecimento de um ambiente de confiança e partilha entre vizinhos cordatos e soberanos. Devemos ter paciência. Não está esgotado, por outro lado, o escrutínio ao regime nazi e às razões que levaram ao seu ascenso, glória e queda. Bem como das razões que conduziram milhões de alemães a apoiá-lo, senão activa, pelo menos passivamente. Trata-se de uma das páginas mais negras da história do mundo sobre que impendem insatisfeitas interrogações. Talvez uma explicação possível caiba no idealismo alemão, no romantismo da transição dos séculos XVIII para o XIX que nos trouxe figuras como Johann Fichte, Friedrich Schelling, ou Friedrich Hegel. Idealismo que corporizou a ideia de uma vocação especial para o povo alemão, de um destino histórico singular simbolizado no ciclo operático O Anel dos Nibelunos, de Richard Wagner. A apologia da catarse guerreira do “povo escolhido”, a marcha ritmada das legiões sob a aclamação das massas, o frémito das bandeiras desfraldadas, foram expressões da interiorização da percepção de um “destino histórico” de grandeza imperial que levou a Alemanha por duas vezes à guerra. Mas é bom lembrar que o regime decretava de forma aberta a eliminação física de todos aqueles que se opunham a esse desígnio ou que o contrariavam e assentava, por isso, no assentimento, na passividade e na cumplicidade do silêncio dos alemães. Num pequeníssimo poema que circulou nos meus meios estudantis no inicio da década de 70, em Lisboa, Bertolt Brecht, o grande dramaturgo alemão [também ele perseguido pelos nazis] dizia: <Primeiro levaram os negros, mas não me importei com isso. Eu não era Negro/ Em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso. Eu também não era operário/ Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável/ Depois agarraram uns desempregados, mas como tenho o meu emprego também não me importei/Agora estão e a levar-me mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo>. A cumplicidade do silêncio
passivo, aqui testemunhado por Brecht, terá sido o grande responsável
pela amplitude dos crimes do nazismo e pela eliminação planeada
de comunistas, homossexuais, ciganos e vários outros grupos étnicos
e sociais da sociedade alemã que não encaixavam na lógica
elitista do verdugo. Ela configura uma incapacidade estrutural de se incomodar
com os outros, de se revoltar com as injustiças que se vêem
ao lado, de questionar os <porquês>. Resume-se em aceitar
o fatum desde que não belisque os privilégios ou ameace
a tranquilidade das boas consciências. O silêncio contracto
que se vive, ainda hoje, na Alemanha, a propósito desses acontecimentos,
revela a incapacidade das gerações que participaram na guerra
ao lado dos opressores, de um verdadeiro arrependimento e de prestar explicações
às novas gerações, das suas culpas e das suas acções.
A situação não é seguramente única
na história. No Japão, a exorcização dos fantasmas
da guerra e do belicismo expansionista japonês é ainda hoje
tabu nacional como acontecimentos recentes o comprovam. Na China, numa
dimensão diferente, a recordação dos atropelos da
revolução cultural suscita intranquilidade entre as vítimas
e os agressores. Ninguém se mostra disponível para mexer
nos seus “esqueletos” na certeza que dificilmente poderá
conter os seus efeitos. Na peça de Kate Fodor, <Hannah and Martin> que acaba de estrear num pequeno teatro de S. José, na Califórnia, Hannah Arendt é retratada a visitar o filósofo Martin Heidegger aquando do Julgamento de Nuremberga. Arendt fora obrigada a fugir da Alemanha para os Estados Unidos por ser judia. Heidegger, seu professor, mentor e amante, havia-se convertido ao nazismo, tornando-se um dos intelectuais emblemáticos do regime. Com a rendição alemã fora destituído da universidade e proibido de escrever. As perguntas que ela lhe dirige [nesse diálogo ficcionado] são o esgravatar dos limites entre a moral da responsabilidade e o utilitarismo da conveniência: Como é que te tornas-te nazi? Que resta da tua filosofia e dos teus ensinamentos? Qual é a natureza do mal? E da compaixão? E da integridade, da humanidade ou do afecto? Por onde passa a fronteira entre o Bem e o Mal? A história repete-se centenas de vezes. O que nos devolve à análise da natureza humana e das suas motivações. Pessoalmente, confino-me mais à prudência do pessimismo hobbesiano que nos toma como vilãos presos pelos nossos instintos mais animalescos [e nos submete a uma rede de controles] do que à bonomia cristã que nos imagina como cordeiros tomados de imperfeições. À cautela. |
| * Texto publicado in Tribuna de Macau de 12 de Maio de 2005, e aqui reproduzido com consentimento do autor. |