| Lusofonia, Portugal e a China * |
| Novembro 2006 |
Arnaldo
Gonçalves |
Consultor.
Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais
pela Universidade Católica Portuguesa |
Actualmente
assessor jurídico na administração da Região
Administrativa Especial de Macau. |
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O reduzido eco dos primeiros Jogos da Lusofonia, que tiveram lugar em Macau entre 7 e 15 de Outubro, na imprensa portuguesa i sintoma claro do divsrcio entre as boas intengues na polmtica externa e o afunilamento da agenda na polmtica domistica. Significa, tambim, que os responsaveis polmticos nco conseguem estruturar as prioridades da acgco externa de Portugal consentindo em ir a reboque das estratigias dos outros. Os primeiros Jogos da Lusofonia juntaram 700 atletas oriundos de onze pamses, de quatro continentes e representando oito modalidades desportivas. Os jogos tiveram lugar por iniciativa da Regico Administrativa Especial de Macau contando com o apoio institucional do governo chinjs. Os Jogos visaram, segundo os promotores, celebrar o espago da lusofonia como comunidade de afinidades construmdas em redor de uma mesma lmngua, o portugujs. Os Jogos custaram 160 milhues de patacas (cerca de dezasseis milhues de euros) o que corresponde a 0,55 por cento das receitas brutas totais dos casinos de Macau, registadas nos primeiros sete meses do ano. Estes nzmeros dco bem sinal da pujanga do crescimento econsmico do pequeno enclave, administrado ati 1999 por Portugal, mas os Jogos tjm uma outra leitura: a utilizagco pela China do conceito da lusofonia, para propssitos de polmtica externa. Porquj este szbito interesse da China em potenciar a ideia da lusofonia, da presenga portuguesa no Oriente, quando seria natural que tudo fizesse para fazer esquecer a presenga portuguesa de 440 anos? Trata-se de um exemplo de pragmatismo chinjs, resultante das reformas econsmicas langadas por Deng Xiao Ping na dicada de 80 explicavel por duas razues principais. Em primeiro lugar, a emergjncia da China como grande potjncia mundial impondo ` China que se afirme como potjncia pacmfica, cosmopolita, aberta ao mundo e apoiante da multiculturalidade. Em segundo lugar, porque as enormes carjncias energiticas do seu modelo de desenvolvimento, da sua rede de infraestruturas, lhe recomenda que olhe para Africa, dada a sua riqueza em recursos naturais, como fornecedor alternativo de crude. De uma forma muito chinesa os responsaveis polmticos de Pequim preferem nco ptr os ovos no mesmo cesto, isto i, ficar dependentes de um znico parceiro comercial e estratigico, seja a Rzssia, a Unico Europeia ou os pamses do Midio Oriente. Isso poderia sair muito caro na eventualidade de uma crise internacional como a que se alimenta com a deriva nuclear do Irco. Este reavivado interesse pelos pamses que foram parte do impirio portugujs no continente africano prossegue, tambim, dois desmgnios adicionais: conseguir o reforgo da balanga comercial com os pamses africanos e com o Brasil e a tomada de posigues em empresas africanas a quem cabe a exploragco de recursos naturais estratigicos. Sendo o pams com maiores reservas cambiais no mundo a China i o pams que qualquer fornecedor de matirias-primas gostaria de ter como parceiro. Um outro aspecto merece referjncia. Em reunico do recente fsrum para a cooperagco econsmica e comercial entre a China e os Pamses de Lmngua Portuguesa que teve lugar, em Setembro passado, em Macau, foi estabelecido que o comircio entre a China e os sete pamses que constituem aquele possa atingir, em 2009, os 45 a 50 mil milhues de dslares americanos. O que a acontecer correspondera ao dobro do valor actual do comircio entre a China e aqueles pamses. Portugal tem, neste particular, uma posigco pouco mais que modesta. Em 2005, as trocas comerciais entre a China e Portugal cifraram-se em mil milhues de dslares norte-americanos, com um difice para Portugal de 300 milhues de dslares. O valor global do comircio China-Pamses de Lmngua Portuguesa (I&E) i de 32 mil milhues de dslares a valores de 2005. A confirmarem-se tais previsues econsmicas e as intengues chinesas quanto aos mercados africanos, Portugal pode ver reduzido, ainda mais, a sua influjncia em Africa. Resta perceber ati que ponto a nomeagco do secretario-geral do MNE, embaixador Rui Quartin Santos como prsximo embaixador em Pequim pode ajudar a inverter uma tendjncia de divsrcio continuado de Portugal das oportunidades colocadas pelo mercado chinjs. |
| * Texto publicado in Tribuna de Macau, e aqui reproduzido com consentimento do autor. |