Diz-se
nas Relações Internacionais que o modelo estatocêntrico
está ultrapassado, que há, no mundo de hoje, uma multiplicidade
de figuras que ao assumirem determinado tipo de importância, tornam-se,
também eles, actores do sistema.
Ao
chegarem ao sistema alguns destes actores, no caso concreto as Multinacionais
do Petróleo (ou da Energia), para atingirem os seus fins necessitam
de aprender com a História dos Estados a agir com Diplomacia.
A
Diplomacia no modelo tradicional estava reservada às entidades
desse sistema, como tão bem explica Calvet de Magalhães
(1) .No caso destas Multinacionais há em nossa opinião duas
dimensões de intervenção diplomática: uma
primeira junto das Elites e uma segunda junto das populações.
A
primeira forma de relacionamento, e a que tem sido praticada por estas
empresas há décadas, é a similar com a tradicional,
ainda que exista em duas vertentes distintas, uma de cooperação,
e uma segunda concorrencial. Na vertente de cooperação,
os Actores concorrentes agem de modo a atrair quer os governantes, que
as Elites, a continuarem com o modelo de concessão de exploração.
Isto é, nos últimos 50 anos, temos assistido a uma progressiva
diminuição da capacidade de influência das grandes
empresas multinacionais de petróleo (2), em favorecimento das empresas
petrolíferas estatais; para contrariar esta tendência as
empresas deverão adoptar uma acção mais concreta
de influência de modo a que o modelo de extracção
por empresas multinacionais continue a ser conveniente. A dimensão
concorrencial, anteriormente referida, assemelha-se em muito à
acção tradicional dos Estados no sistema anárquico:
as empresas aglomeram-se junto dos actores que controlam os recursos –
os Estados – e fazem esforços, com mais ou menos músculo
financeiro, para obter, junto deles, as concessões de exploração.
No
entanto, este modelo de diplomacia económica parece cada vez mais
insuficiente para fazer cumprir os interesses das empresas. O exemplo
último desta situação aconteceu nas últimas
semanas na Bolívia. Manifestações de rua na Bolívia
exigiam a nacionalização da exploração das
reservas de hidrocarbonetos do país – independentemente de
conhecerem a real capacidade do Estado boliviano para investir cabalmente
– de forma a explorar as suas reservas. Assim, cabe às Multinacionais
combater a má reputação que têm (e que em muitos
casos é merecida), e combater a arma de negociação
directa de muitos Estados: as empresas petrolíferas estatais .
O tipo de intervenção neste caso é muito mais complexo
e terá forçosamente, com vista a diminuir custos, de envolver
actores terceiros: através da Diplomacia Pública. Esta moderna
forma de acção diplomática desenvolve-se não
através dos canais tradicionais mas através da gestão
da imagem, muito ligada à capacidade de atracção,
logo, no caso dos Estados, ao Soft Power. A manipulação
desta capacidade das Multinacionais tem de ser feita de forma mais inteligente
do que aquela que tem acontecido. É preciso envolver actores terceiros:
as Organizações Não Governamentais. É sabido
que na maior parte dos casos as fontes de energia e os maiores consumidores
não são os mesmos, e que as fontes são, muitas vezes,
países onde a estabilidade é apenas uma miragem. Como tal,
as petrolíferas têm de deixar de ser parte do problema e
fazerem-se notar como parte da solução – fazendo uso,
para tal, dos actores terceiros.
Nos
países a que nos referimos o Estado não tem, ou não
faz por ter, a capacidade de apagar todos os fogos sociais, havendo por
isso muitas vezes uma rede de ONG´s que são capazes de atingir
nichos fundamentais do problema; sendo, dessa maneira, capazes de oferecer
estabilidade e desenvolvimento.
Assim,
o estabelecimento de parcerias entre estas multinacionais e os agentes
da solidariedade internacional directa parece ser uma quase inevitabilidade
de modo a preservar o modelo de exploração em vigor, pois
estas multinacionais têm de fazer um difícil jogo de equilíbrio
entre agradar a Elites, muitas vezes cleptocratas e desinteressadas do
bem- -estar social e a uma população que se vê com
o enorme poder dos que não têm poder e, não raras
vezes, nada a perder.
(1)Magalhães,
José Calvet de, “A Diplomacia Pura”, Bertrand, 2ª
Ed., 1995
(2) No início eram estas empresas que controlavam o preço
do petróleo no mundo, as Sete Irmãs: BP, Shell, Chevron,
Texaco, Gulf, Exxon e Mobil. Com a progressiva diminuiçãoda
sua inffluência temos assistido ao moviomento de fusões (Cevron/Texaco/Gulf
e Exxon/Mobil) e também a uma redução das quantidades
de hidrocarbonetos por elas extraídas. Paralelamente, as empresas
dos Estados assumem um crescente papel no mercado internacional, casos
da Arábia Saudita, Irão, China, Nigéria (ainda que
aqui em parceria com estrangeiros), Brasil (com a Petrobrás na
vanguarda da exploração em Off-Shore), Índia e Rússia
(onde o Estado continua a deter capacidade no mercado petroífero
interno).
Nos países que adoptam este modelo, a exploração
de petróleo é um vector crucial da sua Estratégia
nacional, num modelo centralizado, não como os EUA, G.B. ou França
fazem.
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