Dada a expressividade do “não” nos
referendos francês e holandês, e sem entrarmos aqui numa análise
sócio¬ política das votações em causa,
estamos convencidos, aliás, como grande parte dos analistas, que
o Tratado que estabelece uma Constituição para a Europa
irá ser abandonado: solução essa que se apresenta
ainda mais reforçada com a decisão de Blair de “suspender”
a realização do referendo no Reino Unido.
De qualquer modo, os outros Estados¬ membros que previram
e que ainda não realizaram os respectivos referendos, o caso de
Portugal, podem, se os seus orgãos de soberania assim entenderem,
realizᬠlos nas datas estabelecidas. Contudo, dada a dinâmica
expansiva dos “não” já expressos, e tendo também
em conta as sondagens de opinião realizadas em certos países,
como a Alemanha, onde o Tratado foi aprovado pela via parlamentar, tudo
se desenha no sentido do Conselho Europeu, de 16 e 17 de Junho, ou então,
o próximo, a ter lugar a seguir à rentrée, decidir
pelo “congelamento” dos processos de aprovação
e ratificação a terem ainda lugar.
O processo da construção europeia vive,
pois, uma crise grave, talvez a mais grave que até hoje o assolou.
É certo que a Democracia funcionou e que nos casos
da França e dos Países¬ Baixos os respectivos povos
se implicaram e se mobilizaram em contendas de informação
sobre a Europa e o Tratado Constitucional, com uma amplitude sem precedentes!
E, como, em Democracia o Povo é soberano, compete agora aos dirigentes
políticos tirar ilações e lições para
poderem imprimir um novo rumo e um novo sentido à construção
europeia, de modo a aproximᬠla, o mais possível, dos
sentimentos e dos desejos positivos dos cidadãos.
Desde logo, porque não existe alternativa ao projecto
da construção europeia e, por isso, a União Europeia
continua viva, isto é, continuará a viver no quadro do regime
estabelecido pelo chamado Tratado de Nice, que foi, aliás, adoptado
e aprovado precisamente para permitir à União funcionar
e viver com 27 Estados¬ membros.
Parecendo, contudo, certo, que agora a União fará uma pausa,
ou melhor, atravessará uma fase de reflexão que lhe permitirá,
antes de tudo, avaliar e digerir as forças centrífugas geradas
pelo último grande alargamento. E, simultaneamente, e isto resulta
dos “não” que são contudo a favor da construção
europeia, repensar o seu modelo económico e social e as respectivas
políticas e acções comuns de sustentação
da solidariedade, isto é, encarar a possibilidade de instaurar
um “governo económico” e um “governo social”,
propostas, sublinhe¬ se, que foram recusadas pela maioria dos membros
da Convenção que elaborou o projecto de Constituição
Europeia!
Na realidade, a União Europeia centrou¬ se,
a partir de 1992¬ 93, nos processos de alargamento, como já
vimos, repousando posteriormente em cima do euro e à sombra do
Banco Central Europeu, ao mesmo tempo que ia fazendo politics nas costas
dos cidadãos, em vez de policies dirigidas ao welfare dos cidadãos!
E quanto à adesão da Turquia, embora a questão
tenha sido agitada pela extrema direita, quer em França, quer na
Holanda, pode considerar¬ se que o seu efeito se limitou a acentuar
o sentimento de insegurança que muitos cidadãos sentem perante
uma Europa que parece tender a alargar¬ se indefinidamente, desconhecendo¬
se as suas fronteiras e os seus limites, isto é, perante uma “Europa
que deixou de proteger”!
Mas a crise é também grave porque (e, talvez,
por isso mesmo!) a situação económica e social dos
países mais ricos da União é tudo menos animadora:
taxas de desemprego em crescendo, reformas desestruturantes dos regimes
de protecção social e de saúde, imigração...,
que vêm gerando receios e falta de perspectivas em franjas das populações
europeias, cada vez mais importantes em termos sociais.
Ora, o futuro da União Europeia, a médio
prazo, vai depender das actuais negociações acerca das perspectivas
financeiras para 2007¬ 2013. E os primeiros sinais de tais negociações
não têm sido nada positivos, na medida em que revelam uma
erosão da dimensão da solidariedade federal, uma vez que
o laço estrutural da pertença¬ dependência (e
da dependência¬ pertença) tende a ser entendido sobretudo
em termos de contabilidade nacional: assim, por exemplo, os holandeses
querem diminuir significativamente a sua contribuição financeira;
a Alemanha diz não poder contribuir com mais; os britânicos
não querem abdicar do seu privilégio tatcheriano do “I
want my money back” e os portugueses querem ver mantidos os benefícios
dos Fundos estruturais e da coesão!
É já agora, e no quadro destas negociações,
que o futuro da União Europeia, com Constituição
ou sem ela, vai ser decidido! E, desde logo, porque só com perspectivas
financeiras generosas e sustentáveis poderá a União
responder aos grandes desafios com que se defronta nos nossos dias.
Em primeiro lugar, para poder gerir e digerir o alargamento
numa perspectiva de coesão económica e social, senão
teremos mais carcinomas políticos no centro e leste europeu, além
dos dos Balcãs, ainda em fase de terapias rígidas.
Em seguida, para ter meios, e os financeiros contam, para
desenvolver a sua nova Política Europeia de Vizinhança,
de modo a estabelecer nas suas novas fronteiras, que vão do Báltico
ao Cáucaso, espaços de estabilidade e de desenvolvimento.
Por último, para não descurar o desenvolvimento
e aperfeiçoamento dos instrumentos estratégicos de acção
internacional (PESC/PESD, mas também a cooperação
para o desenvolvimento, a ajuda humanitária, etc.), que têm
permitido à União, enquanto “actor global”,
intervir nas dinâmicas das relações internacionais,
articulando e afirmando, por um lado, uma concepção de segurança
(“colectiva”) alargada à segurança humana (“a
segurança do mundo ocidental depende do bem¬ estar dos outros”)
e, por outro, uma concepção de defesa baseada sobretudo
na prevenção e no monitoring, isto é, fundada no
diálogo e na consolidação do outro.