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É frequente falar-se
em cidadania e da sua importância para a consolidação
e desenvolvimento das sociedades democráticas. Em Portugal, nos
mais variados campos de discussão, o conceito de cidadania é
usurpado para fazer realçar uma pertença lacuna de participação
na construção e correcção dos devaneios que
ocorrem em qualquer sistema democrático. Quer-se fazer querer que
os cidadãos estão afastados da vida política, que
as taxas de abstenção são uma manifestação
do desinteresse sobre a causa pública, que os verdadeiros problemas
políticos não exigem a tomada de decisão dos cidadãos
e que por isso a informação se resume a aspectos circunstanciais,
quer sobre os protagonistas dos factos políticos, quer sobre a
ilusória concepção de que apenas um círculo
restrito de pessoas que domina a informação pode opinar
sobre ela.
Posto isto, e reconhecendo
que esta concepção se justifica a ela própria, importa
dar a quem tem o direito constitucionalmente consagrado de se fazer representar
e de poder escolher, o poder de participar na decisão pública,
no entanto, é também um dever de cidadania conhecer o texto
constitucional, que a todos obriga, e aí saber identificar quais
as possibilidades e os limites dessa participação. Não
se trata apenas de conhecer os direitos, liberdades e garantias, constitucionalmente
consagrados, importa também conhecer o ordenamento jurídico
que nos enquadra enquanto cidadãos plenamente inseridos numa sociedade
com regras e, também com deveres.
Serve isto para dizer
que a exigência de uma participação cívica
e responsável não se esgota na exigência de respeito
pelos nossos direitos, mas exige o cumprimento dos nossos deveres e aí
as acções de cada um assumem uma dupla responsabilidade.
Já não se trata apenas de fazer valer os nossos direitos
e cumprir os nossos deveres ao nível das associações
de moradores, ao nível da nossa povoação ou do nosso
país. Hoje, como sempre, é exigida uma responsabilização
global, uma participação nas causas comuns da humanidade
como sejam a defesa dos direitos humanos, a preservação
do meio ambiente, a tolerância entre povos e culturas no respeito
e compreensão pela diferença.
Mas como realizar
tal tarefa? Como exercer os nossos deveres de cidadania à escala
global? Como pode ser enquadrada tal participação e responsabilização?
Num quadro referencial
democrático, aquele a partir do qual falamos, para que tal participação
seja possível, para além das acções individuais
que cada um pode tomar, é importante saber que existem instituições
que exigem essa nossa aderência, que exigem que responsabilizemos
aqueles em que é delegado o poder. São exemplos mais flagrantes,
no contexto português a União Europeia e a NATO.
No respeita à
União Europeia existe hoje uma Constituição que nos
poderá vincular a todos mas que não é conhecida na
sua generalidade pelos portugueses. Esta Constituição, entre
outras inovações e usurpações de soberania,
resulta da unificação dos ‘três pilares’
da construção europeia, substituindo os tratados anteriores.
- Dota a União de personalidade jurídica própria
colocando-se, nas matérias em que tem competência própria,
em pé de igualdade com outros Estados;
- O Senhor PESC (Política Externa e de Segurança Comum)
transforma-se num novo Ministro dos Negócios Estrangeiros da União;
- Em muitos assuntos as decisões deixam de ser tomadas por unanimidade
e passa a ser considerada uma maioria qualificada considerando-se (em
casos particulares) o número dos Estados e o peso da população
na tomada de decisões.
É um novo enquadramento
que, aliado ao alargamento a 25 Estados, faz com que seja necessário
prestar tanta ou mais atenção aos assuntos europeus do que
aos assuntos nacionais. Neste contexto várias questões se
colocam:
- Conhecem-se as competências dos nossos representantes no parlamento
europeu?
- Conhece-se a amplitude de acção do nosso Presidente da
Comissão Europeia?
- Dos comissários?
- Da influência das políticas e do Direito Comunitário
na nossa vida diária?
Apesar da importância
de tais questões, não é apenas em relação
à União Europeia que se torna necessário dar a conhecer
as condições de participação e de efectivação
de uma cidadania de dimensão global. Também não é
por acaso que, no caso da União Europeia o Senhor PESC tenha sido
substituído pela figura do Ministro dos Negócios Estrangeiros
da União. De facto, a União nunca demonstrou disponibilidade
para se dotar de uma força de defesa e de reacção
rápida que possa obviar conflitos internos ou mesmo de projectar
poder no mundo e, tal facto, como é conhecido de todos os manuais
de ciência política, enfraquece qualquer organização
política, sedo esta ou não a maior contribuinte de assistência
ao desenvolvimento aos países mais pobres.
É neste contexto
que é importante compreender a importância da NATO, desde
a sua fundação para Portugal, mas também para toda
a Europa e ainda mais a partir de 1989. A Organização do
Tratado do Atlântico Norte, para além da sua missão
decisiva na manutenção da ordem mundial e posterior superação
da Guerra Fria, assumiu-se, nesta transição de século,
como a única instituição capaz de suportar os valores
democráticos que perpassam a civilização dita ocidental.
Da mesma forma e devido ao seu carácter bélico, é
a única instituição capaz de ultrapassar os condicionalismos
políticos que subjazem à ONU (China e sobretudo Rússia),
actuando, hoje em dia em missões denominadas ‘out of area’,
como é o caso do Afeganistão e agora (embora de modo quase
simbólico por culpa de franceses, alemães e espanhóis
ou, talvez, de Bush) no Iraque.
Por que é importante
a NATO?
Para além da
garantia da nossa segurança, do apoio em missões nacionais
de risco, no combate ao terrorismo, a NATO é também o braço
armado que permite a protecção do nosso modus vivendi e
a projecção dos nossos valores civilizacionais. Neste contexto
várias questões se colocam:
- Conhecemos a estrutura e composição da NATO?
- Os seus comandos operacionais e as suas funções, entre
os quais o português?
- As suas missões e o que significa a nossa participação
nelas?
Quer ao nível
da representação política, quer ao nível da
nossa participação nas forças que garantem o exercício
e a promoção do nosso modo de vida, da democracia em que
prezamos viver e dos valores que a sustentam, é uma questão
essencial de cidadania sabermos participar responsavelmente nas diversas
pertenças que assumimos e que nos identificam como povo ao mesmo
tempo que nos situam na história permitindo-nos construir, a partir
dessas pertenças, o nosso futuro.
A cidadania já
não é nacional é, hoje e sempre, mundial e temos
todos e cada um de nós, forçosamente, de adoptar o sentido
daquela frase que Sócrates não escreveu: “Não
sou Grego nem Ateniense mas sim um cidadão do mundo.”
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