Choque e Horror *
Dezembro 2004
Arnaldo Gonçalves
Consultor. Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa
Actualmente assessor jurídico na administração da Região Administrativa Especial de Macau.
 
O tremor de terra que teve o epicentro na ilha de Sumatra na Indonésia no domingo passado com uma magnitude de 9.0 na escala de ritcher, e o tsunami que com origem no arquipélago varreu todo o Sudeste Asiático até às costas do subcontinente indiano lançou uma onda de destruição, morte e aflição de que não há memória em décadas.

O balanço das agências internacionais aponta já para 50 mil mortos, encontrando-se os corpos das vitimas a ser descobertos pelas equipas de socorro internacional que vêm acorrendo aos lugares mais atingidos por esta catástrofe. Entre eles estão quatro países: a Indonésia com 27.174 mortos, o Sri Lanka com 18.706, a Índia com 4.371 e a Tailândia com 1.516. A catástrofe apresenta dimensão mais reduzida nas Maldivas, na Malásia, na Brimânia, no Bangladesh e em quatro nações africanas: Somália, Quénia, Seichelles e Tanzânia.

Espalhando uma onda de terror e destruição no seu caminho o tsunami flagelou os resorts turísticos de Pukhet, no sul da Tailândia e colheu vitimas entre os turistas que se encontravam naquelas estâncias turísticas a passar o Natal. Os relatos dos sobreviventes e familiares, recolhidos pelas agências internacionais, dão bem a dimensão da tragédia e da fúria dos elementos da natureza, que as noticias das vitimas entre portugueses, italianos, suecos, ingleses, franceses e outros europeus acrescentaram, porventura, uma nota de transversalidade e partilha a um cataclismo de fragor imponente e quase bíblico. Dir-se-ia que as forças da natureza não escolheram, desta vez, entre pobres e ricos, fazendo repercutir o intrépido da sua força indomável à volta e lembrando aos homens que apesar dos avanços e realizações da Ciência, o Homem não é o rei soberano do espaço em que habita e menos ainda do Universo. A sua acção sobre a Natureza será sempre limitada e circunscrita e quando menos o espera ela faz-lhe notar a sua insignificância.

Macau conta, desta vez, segundo dados fornecidos pelo Ministério de Negócios Estrangeiros, com cinco prováveis vítimas já identificadas, mas ainda não localizadas, encontrando-se a receber tratamento em hospitais da Tailândia, outros cinco compatriotas nossos. No momento em que uma dor silenciosa e surda perpassa pela comunidade portuguesa de Macau permitam-me que retenha um instante para erguer o pensamento para o Criador e invocar a sua incomensurável Providência.

Trata-se agora de conduzir nos locais de impacto do cataclismo um trabalho de remoção dos destroços, de enterro das vítimas e de socorro às comunidades costeiras do Sri Lanka, da Índia, da Tailândia ou da Indonésia “varridas” pelo tsunami e que ficaram absolutamente sem haveres e sem possibilidade de prover o seu sustento. As maiores dificuldades são em água potável e alimentos frescos, bem como na contenção de epidemias provenientes dos corpos ainda submergidos ou escondidos nos destroços.

A solidariedade internacional tem aqui uma enorme responsabilidade e oito agências internacionais encontram-se já no terreno: a Cafod, a Care International, a Cruz Vermelha Internacional, os Médicos sem Fronteiras, a Oxfam, a Save the Children, a Unicef e a World Vision. A União Europeia anunciou esta quarta-feira ir propor a realização de uma conferência internacional de doadores para concertar o esforço de reabilitação e reconstrução, quando a dimensão dos estragos e perdas se cifra em valores absolutamente ciclópicos. Trata-se de uma enorme prova para a comunidade internacional e para as agências de socorro, mas também para os governos — e isso é algo de absolutamente novo — que não poderão desta vez invocar dificuldades internas para os falhanços e a incompetência. Os olhos do mundo estão postos na forma como velhas e novas lideranças na Indonésia, na Tailândia, no Sri Lanka ou na Índia são capazes ou não de corresponder à dimensão da tragédia e às dificuldades dos seus povos. Os conflitos e guerras civis puderam explicar, no passado, os fracassos dos governantes, mas não o fazem hoje.

O cataclismo de domingo passado coloca interrogações muito sérias à capacidade de articulação entre os governos da região Ásia-Pacífico e à sua vontade de cooperação na previsão de catástrofes e acautelamento das suas consequências. Não existem aqui sistemas de previsão de tremores de terra considerando mesmo que uma importante falha geológica atravessa os arquipélagos da Indonésia e das Filipinas e sendo certo [como denunciava a CNN] que se esse sistema existisse, o tempo que mediou entre o tremor de terra e o evoluir do tsunami teria permitido alertar e, porventura, evacuar milhões de pessoas. O tremor de terra provocou uma movimentação das placas tectónicas sob o Oceano Indico na ordem dos 30 metros, o que segundo os cientistas terá consequências na toponímia da região, e sucede-se a abanos sísmicos de menor gravidade na Turquia e no Japão. Nada — nem a lei das probabilidades — autoriza a afirmar que a tragédia não se venha a repetir até acicatada pela mão humana.

O realpolitk tem coibido que se fale da situação caótica e dramática da Coreia do Norte. A corrida ao armamento nuclear desencadeada pelo regime sanguinário de Kim Il Jong, perante os apelos de contenção por parte do grupo dos 4, constitui uma ameaça dramática e latente à paz na região. Se a retórica de afrontamento do pequeníssimo “líder’ e dos seus generais não for sustida poderemos estar - a qualquer momento - perante uma crise internacional de contornos terríficos. Vejo, por vezes, os responsáveis políticos regionais — entre os quais da China - a minimizar a seriedade da ameaça confiantes na força do diálogo e da dissuasão. Não estamos perante factores de racionalidade e previsibilidade, mas com pura estridência e irracionalidade. É bom que não o esqueçamos.

Já me questionei bem no fundo se não existe uma dimensão divina nos acontecimentos de domingo passado. Às vezes intuo que os deuses não estarão particularmente satisfeitos com os desmandos da raça humana e com as forças de destruição que, ciclicamente, despertamos. Numa bonita passagem do Velho Testamento, no livro do Génesis [Gn 6 a 8] relata-se: “O Senhor reconheceu que a maldade dos homens era grande na Terra, que todos os seus pensamentos e desejos tendiam sempre e unicamente para o mal. O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem sobre a Terra e o seu coração sofreu amarguradamente. E o Senhor disse: Eliminarei da face da Terra o homem que Eu criei e juntamente com o homem, os animais domésticos, os répteis e as aves dos céus, pois estou arrependido de os ter feito”. E Deus disse a Noé: “o fim de toda a humanidade chegou diante de mim, pois ela encheu a Terra de violência. Vou exterminá-la juntamente com a Terra. Constrói uma arca de madeiras resinosas [e Deus deu a Noé instruções detalhadas sobre a sua construção]. É que Eu vou lançar um dilúvio que inundando tudo, eliminará debaixo do céu todos os seres vivos. Tudo quanto existe perecerá. Contigo, porém, farei a minha aliança: entrarás na arca com os teus filhos a tua mulher e as mulheres dos teus filhos. De tudo o que tem vida, de todos os animais, levarás para a arca dois de cada espécie para os conservares junto de ti[...] ao cabo de sete dias as águas do dilúvio submergiram a Terra. E Deus diisse: estabeleço convosco esta aliança”.

Faríamos bem em, de vez em vez, relermos e reflectirmos sobre isto.

 
* Texto publicado in Tribuna de Macau de 29 de Dezembro de 2004, e aqui reproduzido com consentimento do autor.