A China e a Lusofonia *
Outubro 2006
Rui Pereira
Técnico superior da Direcção-Geral da Empresa do Ministério da Economia e Inovação e membro do painel Portugal/China
Iniciativas como o Fórum de Macau ou o Fórum China-África constituem acima de tudo "operações de charme" do Governo chinês.

Nos passados dias 24 e 25 de Setembro, realizou-se em Macau a segunda Conferência Ministerial do Fórum de Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (PLP). Após a sua criação em Outubro de 2003, as actividades do Fórum de Macau, como também é conhecido, têm-se baseado na promoção de visitas recíprocas de alto nível, na participação conjunta em eventos empresariais e na organização de acções de formação de recursos humanos.

O principal resultado da reunião ministerial consistiu na aprovação do Plano de Acção para a Cooperação Económica e Comercial no período 2007-2009. Para além da intensificação da cooperação nos domínios do comércio, investimento e intercâmbio empresarial, decidiu-se o seu alargamento a novas áreas, como o turismo, os transportes e a ciência e tecnologia. Foi também anunciado o objectivo de duplicação das trocas comerciais e do investimento entre a China e os PLP no espaço de três anos.

Destacou-se ainda o importante papel que Macau tem desempenhado, no âmbito do Fórum, como plataforma para o reforço das relações económicas da China com os PLP. Desde o início, pareceu claro que este era um objectivo fundamental do Governo chinês.

Mas sejamos francos. Iniciativas como o Fórum de Macau ou o Fórum China-África constituem acima de tudo "operações de charme" do Governo chinês, no sentido de dar visibilidade, em tom politicamente correcto, à estratégia de aproximação da China a África e aos PLP. Paralelamente, a China continua a promover de forma activa, no plano bilateral, os seus interesses económicos nestes países, pelo que se afigura difícil avaliar o verdadeiro valor acrescentado do Fórum de Macau nesta matéria.

Os motivos subjacentes a esta aproximação, que incluem outras regiões, como a América Latina e uma parte da Ásia, são por demais conhecidos. A nível económico, passam pela crescente procura chinesa de matérias-primas no exterior e pela necessidade de escoamento da sua produção industrial e agrícola, sobretudo a de qualidade média-baixa. Em termos político-diplomáticos, a China, enquanto "maior país em desenvolvimento do mundo" e 'player' de importância acrescida a nível internacional, pretende reforçar a sua influência nestes países/regiões, por via de medidas como linhas de crédito concessionais, perdões de dívida e projectos de cooperação para o desenvolvimento.

A reacção de Portugal à iniciativa chinesa de criação do Fórum de Macau foi, como não poderia deixar de ser, de alguma cautela e de "esperar para ver", procurando garantir presença adequada em todas as iniciativas (o que tem acontecido) e obter algumas contrapartidas em termos de acesso das empresas portuguesas ao mercado chinês.

Volvidos três anos, esse aproveitamento estará longe de ser o ideal, mas vale a pena relevar alguns aspectos positivos como, por exemplo, a maior participação portuguesa de sempre na décima primeira Feira Internacional de Macau (MIF), realizada 'back-to-back' com a Conferência Ministerial. Com quase 60 empresas e associações empresariais, oriundas sobretudo dos sectores agro-alimentar (com destaque para os vinhos e o azeite), indústria conserveira, mobiliário, cutelaria, têxteis-lar e cortiça, os mais de 60 mil visitantes da MIF puderam testemunhar a elevada qualidade da oferta portuguesa e a excelência dos nossos produtos regionais.

Aliás, o sector agro-alimentar, a fileira casa e os materiais de construção serão objecto de particular atenção em próximas campanhas de promoção de produtos portugueses na China, antecedendo a deslocação do Primeiro Ministro português à China durante o primeiro trimestre de 2007.

Nota: As opiniões expressas neste artigo são emitidas a título individual e não vinculam a Direcção-Geral da Empresa do Ministério da Economia e Inovação.

 
* Texto publicado in Diário Económico e aqui reproduzido com consentimento do autor.

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