| Um mundo em desconcerto * |
| Julho 2007 |
Arnaldo
Gonçalves |
Consultor.
Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais
pela Universidade Católica Portuguesa |
Actualmente
assessor jurídico na administração da Região
Administrativa Especial de Macau. |
Há uma nostalgia que impregna o tempo e que acrescenta uma nota de transição, de percalço, ao fluir da actualidade noticiosa e ao comentário que esta suscita. Os referenciais com que temos feito a leitura dessa actualidade estão, pouco a pouco, a deixar a boca de cena, sendo certo que os novos protagonistas dificilmente iludem uma certa sensação de inconsistência. Nesse particular e lançando um olhar inter-civilizacional pelos problemas com que o nosso tempo se confronta, Ocidente e Oriente, Norte e Sul, países democráticos e países não-democráticos partilham um conjunto de riscos e ameaças que pouco têm a ver com a natureza política do respectivo sistema, mas provavelmente com a sua obsolescência. Os estados-nação foram pensados e dimensionados para um mundo de soberanias arrumadas e articuláveis e não para um mundo sem uma ordem de arrumo, com um desequilíbrio estrutural entre a potência sobrante da antiga ordem e os arremedos das novas potências. Um mundo que mal consegue lidar com os poderes párias, os terrorismos, a pulverização de organizações internacionais de estados e outras abertas a agentes internacionais que não estes. O mundo deixou de “soar” a algo que seja inteligível e, sobretudo, previsível. Tornou-se ignaro, desconcertante, serôdio. E com isso subiu o tom de pessimismo que os mais atentos colam à visibilidade do presente. Forçosamente estamos todos no mesmo barco, embora às vezes parece que vamos cada um por seu lado. Mas se estivermos atentos à crua realidade que se espraia por debaixo do evidente, do fogacho, da ostentação percebemos que o nosso mundo se tornou uma ruela e por ela somos empurrados ao ritmo da nossa desatenção e dos factores que não controlamos. Blair, depois de Chirac, retiram-se do relampejar dos flashes e parece que apreciam o seu regresso à condição de homens comuns. Bush e Putin enfileiram-se, também, à espera do fim do seu tempo. Hu Jintao, também, apesar dos sinais em contrário. É impossível parar a roda do tempo, o render das gerações e a necessidade de novas caras e estilos na esfera pública. Contra o fluir do tempo apenas os tontos crónicos - Castro e Soares - persistem presos ao brilho de um passado que foi de glória e reconhecimento público, incapazes de perceber o ridículo, a palermice, e a aleivosia das atoardas em que se vão repetindo. A Ocidente debatemo-nos contra esse cancro larvar que é o terrorismo. Glasgow, depois de Madrid e Londres, vêm-nos lembrar que este é um problema que está para ficar e que temos de nos habituar a viver com ele. Acreditámos, excessivamente, na bondade natural do homem, na nossa capacidade de regeneração, na beleza das nossas instituições, na capacidade de contrição daquele que fraqueja tomados pelos seus piores instintos. Abrimos as portas a quem devíamos e a quem não devíamos. Olhando às facilidades e ao apelo da tolerância, subestimando que os canalhas nos fariam pagar a condescendência. E mastigamos, hoje, as consequências disso. Parece - dizem os serviços do contra-terrorismo europeus - que a origem do novo regurgitar terrorista tem origem nas segundas e terceiras gerações de emigrantes que se acolhem nas nossas cidades e com que nos cruzamos nos autocarros, no “subway”, nos comboios. Quem visita os “little India” ou os “little Pakistan” nas nossas cidades europeias, os paquistaneses parecem os melhores integrados, os mais cordatos, os cidadãos exemplares. Mas teremos que passar a estar vigilantes e preparados para tudo. Coibindo-nos, conquanto, do acometimento intolerante, racista ou xenófobo. Porque é o mais fácil desancar em alguém. É bom lembrar que os fascismos, os nazismos ou os integrismos nasceram da reacção instintiva do homem comum, operário ou trabalhador, às dificuldades da vida quotidiana e ao aspecto diferente do Outro. E tiveram, quando surgiram, um enorme apoio popular, contrariamente à visão romanceada difundida pelos historiadores de esquerda. Como é bom recordar que esses movimentos não morreram. Jazem adormecidos à espera que alguém os acorde ou os espevite. A Oriente esforçamo-nos por concertar estabilidade, desenvolvimento económico e modernidade, direitos humanos, governo responsável e reportabilidade democrática. São termos da mesma equação, mas não são pólos interdependentes. Podermos ter estabilidade e desenvolvimento com despotismo e centralização autoritária do poder. Como podemos ter democracia, livre amovibilidade dos representantes políticos com estatismo, corrupção, anarquia e irresponsabilidade colectiva. Temos que aprender a viver com uma tendência e outra, não perdendo de vista que apesar dos seus enormes defeitos o homem nada inventou superior à democracia. E que não há confusões quanto àquilo que ela significa, ao contrário do que apregoam os demagogos, os oportunistas ou os simples ignorantes. A democracia é a liberdade dos cidadãos face ao Estado, a capacidade destes fazerem as suas escolhas individuais sem a pressão [ou intimidação] do poder público. Também a escolha da própria verdade, religião ou projecto de vida, aquilo que Benjamin Constant chamou a “liberdade dos modernos”. A democracia é [também] a liberdade de escolher os nossos representantes, de forma directa e universal. Optando entre projectos políticos claros que se assumem verdadeiramente alternativos. E incorpora - regista Ralf Dahrendorf - o direito de nos libertarmos dos nossos governantes quando violam o contrato que fizeram connosco. E fazê-lo sem derramamento de sangue. É algo de simples e intuitivo. Um sistema de regras procedimentais, entronizadas numa Constituição legível por todos. Provavelmente levará algum tempo até que esta compreensão das virtualidades do governo representativo se afirme universalmente, até porque se privilegia, muitas vezes, a estabilidade sobre a prestação de contas, ou o governo pelo consentimento. O estado de direito pode, nesse particular, dar uma boa ajuda, fazendo medrar o sentido da responsabilidade republicana, sem a qual não há vida colectiva sã, nem bons costumes, nem instituições que mereçam o nosso respeito. O “might” tem que dar lugar ao “right”. Mas precisamos de governos de direito e não de autoridades pelo direito. São duas coisas distintas e axiologicamete opostas. O positivismo árido, despersonalizado que ciclicamente se louvaminha, leva-nos irremediavelmente à tirania e a seguir ao totalitarismo. Leia-se a história. A Ocidente a Oriente carecemos urgentemente de perceber o fenómeno religioso e a questão da fé. Durante algumas décadas imaginámos que o problema não era nosso, mas dos que vivem num tempo medieval que fazemos de conta que já não existe face ao oceano da modernidade [ou lhe é marginal]. Precisamos ou não de fé? E de religiões? Será que Nietzsche teve razão quando disse não que “há suficiente religião no mundo para matar as religiões do mundo” ou ainda quando alvitrou que “o último cristão morreu na cruz”? Boas férias. |
| * Texto publicado in Tribuna de Macau, e aqui reproduzido com consentimento do autor. |