A Lisboa do século XIX e XX acolheu tertúlias sobre literatura, arte, sociedade e política. Eram conversas informais entre grupos de pessoas, umas mais fiéis, outras mais esporádicas, que se reuniam em cafés, restaurantes, livrarias, clubes, hotéis ou mesmo em esquinas.

As tertúlias aconteciam um pouco por toda a parte desde a Baixa ao Cais do Sodré, e especialmente na Rua Garrett a que José Cardoso pires chamou o “nervo do Chiado” e “durante mais de um século, o meridiano das artes e das letras portuguesas”, onde “a cada notícia, a cada encontro, havia uma ideia a contestar para logo outra nascer”.

À volta de uma mesa, em lugares mais ou menos requintados, grupos de sábios e de menos sábios, leram, escreveram, debateram, conspiraram, reinventaram o mundo.

Com o aproximar do fim de século XX as tertúlias desapareceram. Eduardo Cintra Torres escreveu a propósito desta nova conjuntura:

"Porque terá terminado a tertúlia? [...] Compreende-se que hoje não poderia ser possível uma tertúlia com homens que eram, afinal, diletantes maravilhosos do tempo da comunicação oral e do «convívio ao vivo» entre as pessoas. Esses homens já não existem e, se os há, os contemporâneos, ingratos, não têm paciência para ir ter com eles. [...] Hoje, com tantos telefones, com tantos meios de comunicação, com uma parafernália de publicações, rádios, televisões, e-mail, chat-lines na internet - quem precisa de ir, quem tem tempo de ir à porta da Bertrand ou ao café Montecarlo saber o que pensa um fulano que escreve no jornal ou fala na rádio [...]? As tertúlias modernas fazem-se ao telefone ou em frente dum écrã."

Tendo por referência o espírito que animava as tertúlias dos séculos passados, o CIARI tem procurado fazer renascer o hábito do «convívio ao vivo» entre pessoas com um interesse comum: os assuntos alusivos ao campo da Ciência Política e das Relações Internacionais.

A ideia de realizar tertúlias surgiu a par do lançamento do sítio do CIARI na Web. A primeira delas foi realizada em Abril de 2001. Hoje, com um número já considerável de tertúlias realizadas, felicitamo-nos por ter tornado possível o encontro de pessoas com paciência para a discussão de ideias, e que entendem que as novas tecnologias, apesar de nos facilitarem a vida em muitos afazeres quotidianos, não substituem a forma presencial de comunicar entre as pessoas.

As nossas tertúlias constituem conversas informais, orientadas de forma organizada, sobre assuntos de política internacional relevantes no âmbito da Política Externa Portuguesa.

Os participantes, quer os mais assíduos, quer os esporádicos – dado o formato de reunião, em regra, ser uma grande mesa circular ou rectangular – estão todos no palanque e são intervenientes activos nas tertúlias.

Conscientes de que o ambiente das tertúlias literárias de Pessoa, Eça, Ortigão ou Bocage é irrecuperável e único, temos vindo a despertar um ambiente de tertúlia próprio desta nova era que é a nossa.

Foi o prazer de continuar a pensar que nos encaminhou para esta forma de «convívio ao vivo», num ambiente de conhecimento partilhado e de desenvolvimento da consciência crítica. A motivação primeira das tertúlias do CIARI é o gosto pelo saber.